segunda-feira, 23 de julho de 2012

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Ruído de Passos: Conto de Clarice Lispector pode ganhar uma nova adaptação em curta-metragem

O  conto  "Ruído  de  Passos"  da  consagrada  escritora
Clarice  Lispector (1920-1977) poderá  ganhar  
uma  nova  versão   em  curta–metragem,  
com  direção  e  roteiro  de    Claudia  Marafeli  
e  interpretação  de  Miriam  Mehler,  
vivendo  a  personagem  Cândida  Raposo. 
Ainda  sem  previsão  para  o  lançamento.


Em  1995  “Ruído  de  passos”  ganhou  uma  versão 
para  cinema,  o   curta-metragem  teve  a
direção  de  Denise  Gonçalves,  interpretação  de  
Renée  Gumiel   e  produção  de  Moema  Filmes.

Confira  o  conto  
“Ruído  de  Passos”  de  Clarice  Lispector

Tinha  oitenta  e  um  anos  de  idade.  
Chamava-se  dona  Cândida  Raposo.
Essa  senhora  tinha  a  vertigem  de  viver. 
A  vertigem  se  acentuava  quando  ia  passar  
dias  numa  fazenda: a altitude,  o verde  das  árvores,  
a  chuva,  tudo isso  a  piorava. Quando
ouvia  Liszt  se  arrepiava  toda.  Fora  linda  na  juventude.
E  tinha  vertigem  quando  cheirava  
profundamente  uma  rosa.
Pois  foi  quando  dona  Cândida  Raposo  
que  o  desejo  de  prazer  não  passava.  
Teve  enfim  a  grande  coragem  de  ir  a  
um  ginecologista.  E  perguntou-lhe  envergonhada,
de  cabeça  baixa:
- Quando  é  que  passa?
- Passa  o  que,  minha  senhora?
- A coisa.
- Que  coisa?
- A  coisa,  repetiu.  O  desejo  de  prazer,  disse  enfim.
- Minha  senhora,  lamento  lhe  dizer  que  
não  passa  nunca.
Olhou-o  espantada.
- Mas  eu  tenho  oitenta  e  um  anos  de  idade!
- Não  importa,  minha  senhora.  É  até  morrer.
- Mas  isso  é  o  inferno!
- É  a  vida  senhora  Raposo.
A  vida  era  isso,  então?  Essa  falta  de  vergonha?
- E  o  que  eu  faço?  Ninguém  me  quer  mais...
O  médico  olhou-a  com  piedade.
- Não  há  remédio,  minha  senhora.
- E  se  eu  pagasse?
- Não  ia  adiantar  de  nada.  
A  senhora  tem  que  se  lembrar
que  tem  oitenta  e  um  anos  de  idade.
- E ... e  se  eu  me  arranjasse  sozinha?  O  senhor  entende
o  que  eu  quero  dizer?
- É,  disse  o  médico.  Pode  ser  um  remédio.
Então  saiu  do  consultório.  A  filha  esperava-a  embaixo,
de  carro.  Um  filho  Cândida  Raposo  perdera  na  guerra,
era  um  pracinha.  Tinha  essa  intolerável  dor  no  coração:
a  de  sobreviver  a  um  ser  adorado.
Nessa  mesma  noite  deu  um  jeito  e  solitária  satisfez-se.
Mudos  fogos  de  artifícios.  Depois  chorou.  Tinha  vergonha.
Daí  em  diante  usaria  o  mesmo  processo.  Sempre triste.
É  a  vida,  senhora  Raposo,  é  a  vida.  Até  a  benção  da  Morte.
A  morte.
Pareceu-lhe  ouvir  ruído  de  passos.
os  passos  de  seu  marido  Antenor  Raposo.

Conto  de : Clarice  Lispector 

4 comentários:

Adriana Helena disse...

Veja só Dellone, que ótima notícia!
Adoro os contos, textos e frases da Clarice Lispector e vou esperar ansiosa essa curta-metragem! Ficará maravilhoso!!!

Muito obrigada por compartilhar tamanha informação, junto com o Conto! Foi bom demais relembrar!!
Abraços e ótima semana!!!

۩☆€ŁØĐƗΔ☆۩ ♀ disse...

gostei muito de saber... principalmente vindo de Clarice Lispector.

Dellone disse...

Olá srta Adriana
lhe digo o mesmo, com certeza ficará muito bom!
...Agradeço vossa agradável visita,
...que isso, eu que lhe agradeço!
Tenha uma boa noite e Ótima semana pra ti!

Dellone disse...

Que prazer vê-la por aqui Lady
...assisti o primeiro curta, achei ótimo
e acredito que este também será!
...é um ponto de vista bem interessante
este da libido na terceira idade.
Tenha uma ótima noite e uma agradável semana!

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